Por Aline Molina
O corpo feminino fala. E o silêncio em torno do climatério é também uma forma de silenciamento político.
Durante décadas, a cultura patriarcal tratou a menopausa como um “fim”. Fim da fertilidade, do desejo, da potência. Mas talvez estejamos justamente diante do contrário. Como afirma a filósofa Silvia Federici, “o corpo das mulheres sempre foi campo de batalha e também território de resistência”. E no climatério, esse corpo convoca uma nova leitura: ele deixa de servir a expectativas externas e passa a reivindicar autonomia.
O climatério é um processo biológico, sim, mas também profundamente simbólico. Ele marca um ciclo de transformações hormonais, com redução do estrogênio, alterações de sono, metabolismo e humor, que impactam o cotidiano e a vida emocional. No entanto, reduzi-lo a uma questão médica é empobrecer sua potência. Trata-se de um momento de transição em que o corpo feminino pede escuta, cuidado e liberdade. Como nos lembra a psicanalista Françoise Dolto, “o corpo fala o que a boca cala”.
O climatério pode ser lido, então, como uma fala do inconsciente. Ele anuncia o tempo de olhar para si mesma, de reposicionar desejos, limites e prioridades. É um rito de passagem invisível, vivido muitas vezes em meio à sobrecarga e à solidão. Nas relações de trabalho, o silêncio sobre a menopausa se soma a um histórico de invisibilização do corpo feminino. No sistema financeiro, onde prevalece a lógica da produtividade e da performance, a mulher bancária, acostumada a ser a “solucionadora de tudo”, é pressionada a seguir entregando resultados, mesmo quando o corpo pede pausa.
A exaustão, as insônias, as ondas de calor e a irritabilidade não são apenas sintomas fisiológicos. São expressões de um sistema que exige constância mecânica de corpos que estão em plena revolução interna. Em muitas agências, o ar-condicionado gelado, o ritmo intenso e o controle do tempo tornam-se inimigos da saúde. E a cultura corporativa raramente reconhece as necessidades dessa fase da vida. Como observa a socióloga Danièle Kergoat, “as relações de gênero atravessam o trabalho, produzindo desigualdades que se naturalizam no cotidiano”. A bancária que chega ao climatério carrega não apenas a pressão por resultados, mas também o peso simbólico da idade. A juventude é valorizada como atributo de sucesso, e a mulher madura passa a ser vista como “fora do padrão”. É nesse ponto que o discurso da meritocracia se cruza com o etarismo e o sexismo, formando um triplo obstáculo.
Falar de climatério e menopausa no mundo do trabalho é, portanto, falar de direito ao cuidado. Cuidado entendido não como concessão ou fragilidade, mas como dimensão política. Cuidar-se é subverter a lógica que faz do corpo uma máquina produtiva. É reivindicar o tempo da escuta, da saúde integral e da autonomia sobre si.
Em muitas mulheres, o climatério também desperta uma potência inédita. A sensibilidade muda, o olhar se amplia, e o desejo de autenticidade cresce. Como propõe bell hooks, “o amor-próprio é o fundamento da liberdade”. Quando uma mulher decide ouvir seu corpo, ao invés de silenciá-lo para se adequar, ela inaugura uma nova forma de resistência. No campo sindical, essa escuta precisa se traduzir em políticas concretas: diálogo aberto sobre saúde hormonal, ampliação de atendimentos psicossociais, protocolos de acolhimento, campanhas educativas e formação de lideranças sensíveis ao tema.
O climatério não é um problema pessoal, é uma questão de saúde coletiva e de justiça de gênero. Há ainda um aspecto estrutural que precisa ser enfrentado com urgência: a inclusão e retenção de mulheres acima dos 50 anos no mercado de trabalho. As empresas, especialmente as do setor financeiro, foram protagonistas e apoiadoras da Reforma da Previdência, que elevou a idade mínima de aposentadoria das mulheres para 62 anos. Se as trabalhadoras terão que permanecer mais tempo na ativa, é incoerente e injusto que o mercado de trabalho continue descartando-as a partir dos 45 ou 50 anos.
O discurso meritocrático que exalta “diversidade etária” se dissolve na prática, quando vemos mulheres maduras sendo substituídas por perfis mais jovens e baratos. O climatério, nesse contexto, passa a ser usado como justificativa implícita para exclusão, como se o corpo que muda deixasse de ser produtivo.
É urgente construir políticas estruturadas de contratação, retenção e valorização de mulheres 50+, com programas de transição, capacitação, flexibilização de jornada e reconhecimento da experiência acumulada. Isso não é apenas uma questão de equidade, mas de coerência social. Se o Estado exige que mulheres trabalhem até os 62, as empresas devem assumir a responsabilidade de garantir que elas tenham onde e como trabalhar até lá, com dignidade, saúde e pertencimento. O que chamamos de “fim” pode, na verdade, ser o início de uma nova forma de estar no mundo.
O climatério é também uma travessia política: ele desestabiliza a ideia de que o valor da mulher está em sua capacidade reprodutiva, estética ou de servir aos outros. Ele nos lembra que somos muito mais do que funções. Na menopausa, o corpo se desnuda do papel social imposto e se reapropria de si. Essa reapropriação é um ato de poder. É quando a mulher bancária, tantas vezes condicionada a segurar o sistema,começa a se perguntar: “o que, afinal, ainda quero sustentar?”. Entre planilhas, metas e boletos, talvez o corpo esteja pedindo uma revolução íntima. Uma em que produtividade e prazer possam finalmente coexistir. Porque o climatério não é o fim de nada. É o início de uma escuta mais profunda, de si, das outras e do mundo.
Aline Amorim é dirigente sindical, psicanalista em formação, educadora e pesquisadora nas áreas de saúde mental, envelhecimento e relações de trabalho
Referências: – Federici, Silvia. O Calibã e a Bruxa. Elefante, 2017. – Dolto, Françoise. A imagem inconsciente do corpo. Martins Fontes, 1984. – Kergoat, Danièle. Divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo. In: O Sexo do Trabalho, 2010. – hooks, bell. All About Love. HarperCollins, 2000.
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